quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Estudo em forma de poema

               O rito secreto da chave.
               A palavra "Encontro" dilacera os suicidas,
               a cidade é inexplicável e há muito
               se acabaram os homens,
               transfeitos em barras de aço
               e barris de petróleo.

              Um último anjo apaga a lâmpada do Encanto,
              fecha a porta dos sentidos,
              em silêncio se esvai num mundo sem fé,
              deixando nos  edifícios
              gente ocupada em nascimento e morte.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tarde

Tarde andando no céu.
Semeio todo um poema
na areia quente do deserto,
águas brotam da penha.

Disseco um demônio todo
no espaço-Cubo das horas.
Na mesma tábua de pedra
deitaram Isaque e o Hóspede,

mas era outra Repartição
que funcionava ali.

Andando no céu da tarde
relógios se derretendo conversam fartura e morte:
asas brotam dos pés
da noite agora mais Rente.

A Extensão dos Tempos

A tarde pousa aos meus pés
seus candelabros enormes.
Grande sede das Horas:
o casamento em Caná
procura o rosto do Hóspede.

Reli papiros, esfinges
fiz estender no varal
tecidos do meu Segredo:
Nijinski beijava as flores
dançando sobre o horizonte.

Enquanto houver Poesia
caminharei pela extensão dos tempos,
vestindo pânico e flor.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Estudo, nº 1

Girassóis cavalgam minhas paredes de pedra.
Da "correnteza de raios
desce uivando o Minotauro".

Pássaros juntando conchas
bebem o orvalho dos pianos
sobre as campinas da Terra,
o filho pródigo retorna dos rios Invisíveis,
árvores desmaiam de emoção .

A luz dum fósforo elétrico
abraça o amigo, o inimigo:
um raio tinge de cinza
os braços negros da noite,
na luz difusa dos sótãos
espero as bodas do Hóspede.

Affonso Revisitado

Há tempos Affonso disse
que "o aumentativo de Fome
podia ser Revolução". Hoje no mundo todo
jornais garantem que ele, infelizmente
falava a Verdade.

Essa Verdade
que ainda insiste em transformar homens
em barro Estéril de escultura,
em números num balancete.

Enquanto isso no campo
grão-senhores colhem torres de petróleo
e nas cidades a próxima chacina amadurece,
debaixo dos nosso olhos
e das torres da Candelária.

Poema da muita Chuva

Faz frio fez chuva. De dia
era ver noite no céu,
e as nuvens rombudas gordas_____
Ronquêra assim
que nem orquestra de trombones.

No Cachambi ninguém sobrando
pra fora de um guarda-chuva,
magotes disputam no ombro
uns frenegués de centímetros
nas poucas marquises Sãs,
as leis da física
dando um trabalho danado.

E ninguém viu Biguá
mascote do bairro todo:
cachorro de rua nenhum
que eu visse de mais Estrela____
os donos são 32, fora os centavos
de troco.

Mas todo mundo aproveita
a deixa da chuva em baldes
caindo pela manhã na zona norte da cidade
pra mastigar pelos ônibus
os seus torrões de azedume:

os olhos compridos
pensando um gosto de sol,
saudade de um samba antigo
e mais orquídeas no bolso.

Guerra (A meu irmão André Mauro)

Pela campina deserta
passam cavalos de Chuva.
De onde vêm pra onde vão,
sei que eles: filhos do Homem.

Os olhos voltam do sono
o dia acalma as marés,
dança de Lua. Primeiros pássaros,
Oboés.

Ao longe Minas Gerais
de perto a Praça das Nações
e seus heróis que na Itália
romperam montes, exércitos:

inda chegaram na guerra
a tempo de oferecer uns mortos,
que gentileza meu Deus.